Outro dia, observando a minha mini-irmã fazendo o dever de casa, vi uma árvore desenhada, daquelas de sempre, tronco reto, abundantes em folhas, grama cercando-a. Daí, me peguei lembrando da época em que era do Primário e desenhava essas árvores, mas nunca tinha visto uma parecida com o desenho. Tentava desenhar algo parecido com as quais via nas ruas ou mesmo em minha casa mais tarde, árvores tortas, aspecto sofrido e às vezes até sem folhas. Sempre saía feio, sempre a Tia mandava redesenhar.
Você, logo, chega ao Ensino Médio, estuda-se Vegetação e Domínios Morfoclimáticos (WTH, né?) e descobre que no Cerrado, domínio predominante em Minas Gerais (e área de transição Cerrado-Mata Atlântica em BH), não possui aquelas árvores legais porque o solo possui alto teor de metais e por causa do clima. Então, eu penso: por que diabos eu tinha que desenhar aquela árvore que nem é típica daqui?
A resposta vem quando você estuda os domínios globais e passa lá pela Inglaterra:

Porque até o desenho das árvores a gente tem que copiar.
Nesse ponto, você já pode parar para pensar e ver o quanto a gente tem difundido coisas que não são naturais do ambiente que habitamos. É tanto conceito pré-fabricado, tanto pragmatismo, tão pronto que você nem consegue dizer que o que está perto é bonito também.
Pois bem, de agora em diante eu e, forçadamente, minha mini-irmã vamos desenhar só árvores típicas do Cerrado, agora no caderno dela é só ipês.

Isso eu sei que existe.
É uma vez a Lebre. Aquela que corre, corre e pode até morrer metros antes da linha de chegada numa possibilidade remota. A Lebre que tenta se firmar entre os leões na cadeia alimentar, a qual, recém-saída da bolha da vida colegial, está entre os poucos por cento dos bichos que terá a chance de chegar à posição dos leões. A Lebre que é prometida como futuro da selva.
A porra da história da Lebre começa quando ela, correndo para chegar ao oásis dos leões, onde cada habitante possui direito a três lebres — a Lebre possui parentesco de primeiro grau com os lobos —, enfrenta, de muito bom-humor, a Lata de Sardinha Motora. A Lata de Sardinha Motora é composta por, evidentemente, sardinhas. São várias que se parecem do cérebro ao fio de cabelo. Normalmente andam juntinhas praguejando por coisas idiotas enquanto deviam ter uma visão do todo.
Quando a Lebre entra na Lata de Sardinha Motora, tropeça pelas coisas das sardinhas as quais se encontram no chão e xinga. E as sardinhas começam a falar e falar e falar. Dão uma pausa, e, logo após, começa outro sermão e o nosso protagonista, como sabe que todo santo dia terá que enfrentar as sardinhas, coloca seus fones de ouvido e dorme até chegar ao próximo destino.
A Lebre tem dó das sardinhas, porque são igualmente tapadas, mesmo não sendo culpa delas. Chegado ao destino, agora precisa enfrentar o Asco — que fica para outro dia. :)
Para pessoas que tão ligadas na velocidade 5 com certeza dá aquele peso na hora de levantar da cama de manhã, parecendo que você acabou de se deitar há dois minutos atrás e o depertador, então, soou o alarme e você tem que levantar para não se atrasar. E se atrasa mesmo assim, correr, correr e descobrir depois que tá um minuto adiantado. Por isso admiro quem vive na rua.
Não falo que a vida de quem vive na rua, os moradores de rua, seja fácil, porque com certeza não é; porém dá muita inveja vê uma pessoa dormindo ao sol do meio-dia. Pode ser uma idéia egoísta e ridícula, mas a sensação passageira de não ter nada planejado pode ser tão reconfortante — como pode ser desesperadora, eu sei, se prolongada. Além disso, ainda tem a coisa do vagabundear, o ócio, o ócio criativo, a vontade de escrever, desenhar e viver disso, bem num estilo hippie, calmo, criatividade e histórias pra contar.
Imagine ser hippie e sair por aí viajando a América Latina e conhecendo lugares…
Mãe, quero ser hippie.
Era segunda-feira, a aula era de redação — as ótimas aulas de redação, que me dão 1h30m de sono para agüentar as outras aulas. Entretanto, eu não estou para me vangloriar de algo desvangloriável, o que quer dizer que algo me chamou a atenção.
O professor, como sempre, projetou a aula no quadro e falou durante um bom tempo e, entre uma minha virada de cabeça para o outro lado e uma troca de posição das pernas, ele falava de quatro citações, que a partir delas deveríamos compor nossas redações — não bem assim, mas quase isso. As citações pareciam típicas do dia-a-dia e não possuíam nada de diferente do que se fala da população jovem. Porém, elas não eram atuais:
"Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos, hoje, são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus." Sócrates (470-399 a.C.)
"Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível." Hesíodo (720 a.C.)
"Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe." Um sacerdote do ano 2000 a.C.
"Essa juventude está estragada até o fundo do coração… Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura." Escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilônia (atual Bagdá) e tem mais de 4.000 anos de existência.
Podem sempre reclamar do jovem — papel dos mais velhos, assim como o nosso reclamar deles –, mas há um ciclo: os jovens ficam velhos e fazem escolhas assim como os velhos já as fizeram. Aquela velha história cíclica, que achei legal compartilhar.



